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O
Labirinto de Chartres: Espelho do Caminho
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Assim que se entra na catedral de
Chartes, bastam alguns passos para se achar frente ao labirinto.
Ele está lá, como um desafio a reanimar. À volta, os seus
espinhos velam no silêncio da pedra. A rosa no seu centro será o
troféu daquele que souber chegar até ela. |
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Os nossos primeiros passos, após um
pequeno desvio, conduzem-nos rapidamente até muito perto da
rosa. Somos encorajados por esta promessa de sucesso... |
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...mas eis que o caminho se afasta e
prossegue como as circunvoluções do nosso cérebro. E andamos
sobre o lado esquerdo. Hemisfério esquerdo do cérebro: o
intelecto. Aquele que calcula, que conta, que raciocina. O
caminho atrai-nos. Prosseguimos. |
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Passamos para a direita e, outra
vez, muito rapidamente, aproximamo-nos do centro para daí nos
afastarmos. |
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Hemisfério direito do cérebro: as
primeiras experiências psíquicas marcantes, as impressões
subjectivas; tomamos consciência de um mundo diferente. Mas logo
queremos analisar e regressamos ao hemisfério esquerdo do
cérebro. |
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Procuramos conhecimentos e tentamos
fazer a viagem intelectualmente. Depressa inúmeros conceitos,
até então desconhecidos, tornam-se familiares. Alguns, não vendo
o que mais poderiam aprender, não irão mais longe. E passarão o
resto da sua existência a fazer discursos e a explicar a vida
aos outros. Estagnação. |
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Outros atravessarão esta ponte, a
conexão entre os dois hemisférios, que é a mais próxima do
Oriente. E eles entrarão neste mundo ignorado do intelecto, onde
não se pode permanecer senão depois de o ter satisfeito e
controlado, fazendo dele uma ferramenta e não mais um obstáculo.
Neste mundo novo é então necessário viver e ousar a experiência
e vivê-la plenamente. Aqui, o discurso não tem lugar. A hora é
de acção: acção-serviço para com a humanidade, assim como,
acção-caminhar activa em direcção ao centro do Ser. |
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Mas o caminho eterniza-se e a rosa é
sempre questão... e é uma dupla circunvolução tão longa e tão
distante do centro que tudo se torna desencorajamento, não mais
intelectual, mas interior, até mesmo físico: a noite obscura do
iniciado, onde o vivido perde o seu sentido para além da ideia
que se pode fazer dele. |
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Alguns, ainda, permanecerão lá:
decepcionados, cansados, prostrados. Outros extrairão de uma fé
sem objecto a coragem de prosseguir. E, reencontrando o eixo de
partida, viverão novamente a dúvida num último desvio, como se
fosse demasiado simples avançar para o coração. Porque é bem no
coração que penetraremos então, na rosa na qual, finalmente,
respiraremos o perfume. |
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Orgulhosos por termos percorrido
este longo périplo e por nele termos ultrapassado com sucesso
todas as provações, acreditamos ter chegado, ao passo que, por
esta análise simples, criamos de todas as peças, os mais subtis
e os mais perigosos dos obstáculos do caminho. Acreditando ter
conquistado a rosa, estamos na realidade enclausurados no centro
da nossa Satisfação, por termos controlado os nossos dois
hemisférios e por termos avançado, com coragem, até ao fim do
caminho. |
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Se nos deixarmos ficar, viveremos
cativos na ilusão de sermos livres. O nosso orgulho terá, então,
todo o tempo para se exprimir. É preciso sair e continuar,
porque o coração do santuário não é aqui. Mas será necessário
refazer todo este caminho e abandonar o labirinto pelo Oeste, em
direcção ao pôr do Sol? Como uma derrota com o gosto amargo do
esforço inútil? Antes de tornar a partir, desfrutamos ainda
deste local e é ajoelhados que oramos o resto da noite, para que
a luz apareça de novo por entre as nossas trevas. Então, se o
nosso coração é puro nesta demanda, com os primeiros raios do
Sol nascente, a Luz surge finalmente. |
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Levantamos os olhos banhados de
lágrimas de Profunda Alegria e andamos em frente, em
direcção à luz do Oriente, sem ver mais nenhum dos muros do
labirinto. |
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Atravessamo-los de qualquer
modo, tomando consciência que eles não são mais do que
linhas desenhadas por terra: labirinto ilusório do nosso
mental e da nossa auto-satisfação. |
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Livres, desta vez, nós o somos, e
avançamos banhados de Luz até ao encontro do Coração verdadeiro,
no seio do qual, finalmente, compreendemos plenamente estas
palavras: Non nobis, Domine, non nobis, sed Nomini Tuo da
Gloriam.
"Não por nós, Senhor, não
por nós, mas pela Glória do Teu Nome.”
Divisa dos Cavaleiros da Ordem do Templo

O desenho da
catedral no cimo desta página foi retirado da excelente obra de
Michel Neillo “La symphonie symbolique ou les merveilles de
la Cathédrale de Chartres" - 1989 - Ed. du Chariot
Poderá consultar
este artigo no original em francês em:
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