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António de Macedo
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por
Sérgio S. Rodrigues
e Miguel Campos-Reis
Fotos:
Alexandre Gabriel
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António de Macedo nasceu no dia 5 de
Julho de 1931 (signo: Caranguejo) na Rua da Rosa, no número 9, o
prédio onde também nasceu Camilo Castelo Branco. Licenciado em
Arquitectura, exerceu a actividade durante oito anos na Câmara
Municipal de Lisboa. Começou por fazer os seus primeiros filmes
ainda nos tempos de estudante com as fitas fora de prazo que o pai
trazia da Kodak¹. Quando funcionário da Câmara, realizou um dos seus
primeiros filmes Ode Triunfal, visto na altura, entre outras
figuras ilustres, por António Quadros, que muito elogiou tal
produção. A sua primeira grande produção foi, contudo, uma
curta-metragem, intitulada Verão Coincidente (1962).
Seguiu-se Nicotiana (1963), uma outra curta-metragem, que
pretendia ser um documentário para a Tabaqueira. Em 1964, deixa a
sua função na Câmara Municipal de Lisboa, pois estava farto de
censurar os trabalhos dos colegas. Começa, então, a filmar
Domingo à Tarde (1965), onde inovou o cinema português,
colocando os actores a falar em voz baixa, quando o habitual era a
declamação das falas por parte destes como se estivessem num palco
de teatro. A este início de carreira como cineasta, sucedeu-se uma
extensa lista de obras cinematográficas: Nojo aos Cães
(1970); A Promessa (1972); As Horas de Maria (1976);
Chá Forte com Limão (1993); entre outras.
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Desde cedo que a
paixão da escrita tomou o seu espírito. Os primeiros livros
publicados foram os dois volumes de Evolução Estética do
Cinema (1959-60), sendo considerados fundamentais na
teorização do cinema. Em 1961, vê publicado Da Essência da
Libertação, um livro que se insere dentro do movimento da
Filosofia Portuguesa. Em 1983, estreia-se no género dramático
com a publicação de A Pomba, publicou mais dois títulos.
Ao nível da ficção, a estreia realiza-se com O Limite de
Rudzky (1992); publicou mais cinco títulos.
Instruções
Iniciáticas (1999) e
Laboratório Mágico (2002) são os
dois ensaios onde o seu simbolismo e o seu esoterismo atingem um
considerável nível de perfeição, apesar de esse mesmo simbolismo
e de esse mesmo esoterismo se encontrarem presentes no universo
dos seus filmes e de outros livros seus. |
Durante duas Quintas-feiras, conversámos
com António de Macedo. As conversas tidas foram longas e de um
interesse inefável.
Instruções Iniciáticas e
Laboratório Mágico foram os dois livros centrais nas
conversas animadamente tidas em casa do cineasta.
Como é que o Esoterismo entra na sua
vida?
«Desde sempre que ele está presente na
minha vida. Até determinada fase, de uma maneira inconsciente. O
ponto de viragem dá-se com o filme O Princípio da Sabedoria, apesar
de uma mistura com o orientalismo.»
E com a viragem do Oriente para o
Ocidente confessa porque razão o budismo é um bom princípio para o
cristianismo:
«Para quem ache que o Cristianismo é
duro demais e tenha dificuldade em compreender o que é oferecer a
outra face, se começar pelo budismo irá compreender o que é oferecer
a outra face - a face da compreensão. O budismo surge numa época em
que era necessário dar um alimento mais mastigado para a gente onde
ele surge. O Cristo já vem para adultos, para gente forte, pois diz
coisas fortes, coisas para o futuro. O Oriente é a fase
preparatória. Os grandes profetas do Oriente prepararam a vinda do
Cristo; e eu próprio tentei esse caminho. O Cristianismo costuma
ser, em Portugal, identificado com Catolicismo e, por isto, há uma
certa relutância. Mas é necessário é ir ao fundo do Cristianismo. O
Oriente, em suma, é uma grande ajuda para sermos cristãos. Mas não é
necessário primeiro ser-se budista para se ser cristão. Mas ajuda.»
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O percurso
místico de António de Macedo, referido em Instruções
Iniciáticas, cumpriu-se do Oriente para Ocidente. A partir
daqui, quando entra na senda do Cristianismo fala de uma procura
sua sobre Escolas de Mistérios e Tradições Iniciáticas. Porquê
essa procura? Para aprofundar os seus conhecimentos? |
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«Para aprofundar e não só. À medida que
ia estudando esses assuntos e que ia lendo René Guénon, que é um
autor importante - apesar de eu não ser guenonista - pois desbravou
muito terreno e clarificou muita coisa, sobretudo ao nível das
tradições iniciáticas, queria conhecer mais. Hoje há muitas provas
de que os inícios do Cristianismo sejam iniciáticos. As primeiras
comunidades cristãs, aquelas que estavam próximas de Jesus, eram
Escolas de Mistérios. As Escolas de Mistérios dos hebreus tinham um
determinado nível vibratório, que urgia elevar no tempo em que
surgiram os mistérios cristãos, iniciados por Cristo. E depois é
muito claro quando ele morreu na cruz e se diz que se rasgou o véu
do Templo, e quase todos os evangelhos dizem praticamente o mesmo. O
véu do templo estava a separar o santuário do Santo dos Santos, onde
estava a arca-da-aliança. Ninguém tinha acesso ao Santo dos Santos,
a não ser o sumo-sacerdote uma vez por ano e após ter feito grande
purificação dos seus pecados. Portanto, a iniciação não estava
aberta a todos. Apenas estava aberta àqueles que pertenciam a certas
"castas". Quando o Cristo veio, elevou os mistérios um grau.
Rasgando-se o véu do templo quando ele morreu, passou-se a ter
acesso ao Santo dos Santos. Ou seja, isto é muito claro quando se vê
as Comunidades Iniciáticas Cristãs, enfim, os quatro Evangelhos,
quatro rituais de iniciação, sendo os sinópticos rituais de
mistérios menores e o de João um ritual de mistérios maiores. A
partir daí, surge o desejo de saber como isso se desenvolveu. E nem
tudo podia ser escrito, pois o ensinamento era feito através de boca
a ouvido. Há dois autores, Clemente de Alexandria e Orígenes, que
falam inequivocamente dos mistérios cristãos, que falam de um
ensinamento esotérico, não sendo este para todos. Jesus tinha um
ensinamento para os discípulos e outro para as multidões.»
Em 1979, lê o seu primeiro livro de
Max Heindel: O Conceito Rosa-Cruz do Cosmos. O fascínio
tomou-lhe o espírito.
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«O João Roque
deu-me uma série de indicações sobre os rosa-cruzes fiquei
fascinado. Já havia o gérmen em mim. Fui à procura de mais
livros e encontrei um livrinho chamado A Doutrina Secreta dos
Rosa-Cruzes, livro que eu li fascinadamente. Como tinha o
contacto, pedi informações. Mais tarde soube que esse mesmo
contacto havia causado grande confusão, pois no Centro Rosa-cruz
não sabiam o porquê de eu, um ateu como me consideravam, ter
contactado um centro rosacruciano. Receberam-me com cuidado.
Disse-lhes que queria entrar e fazer os seus cursos. E assim
foi. Tinha, então, 49 anos (7 X 7).»
Em
Instruções Iniciáticas considera a "via oculta" como sendo
da mente e a "via mística" como sendo do coração. Mas estes dois
conceitos não andam juntos? |
«O ideal é torná-los juntos. Cabe a nós
promover a fusão. Normalmente os místicos não são ocultistas - Santa
Teresa d'Ávila, São Francisco de Assis, Santo António, entre outros,
são grandes místicos, mas não entram pela "via oculta", que é
pertencente às Escolas de Mistérios. Por sua vez, os ocultistas, que
estudam toda a parte filosófica e iniciática, têm as Escolas de
Mistérios destinadas para si, pois através da mente uma pessoa pode
fazer um estudo e uma série de exercícios, desenvolvendo, pouco a
pouco, a cordialidade, o lado do coração. O ideal é juntar as duas
coisas para que a humanidade seja perfeita com os reis-sacerdotes: o
caminho real - o da mente, e o caminho sacerdotal - o do coração.»
E como é que redescobriu o Cristianismo? Através das teorias
rosacruzes?
«A descoberta foi através das obras de
Max Heindel, principalmente com o livro que faz diversas
interpretações da Bíblia. Para ele, todas as alegorias que se
encontram na Bíblia têm um significado. Por exemplo, os doze filhos
de Jacob correspondem aos doze signos do Zodíaco. Há uma série de
alegorias e simbolismos que correspondem a uma série de escolas
iniciáticas. Fiquei fascinado com essas lições de Max Heindel. Fiz
os diversos cursos. A partir daí comecei a ler a Bíblia com outros
olhos. E a Bíblia é, de facto, algo fabuloso; é um documento
cifrado, para o qual se tem de encontrar a cifra, a chave. A
redescoberta foi, assim, através do rasacrucianismo. Depois li os
tratados de teologia católica para ver até que ponto o que era
cristalino se tornou complicado.
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Os teólogos
católicos não são místicos, são ocultistas (risos) sem saber que
o são. Claro que é um ocultismo levado ao extremo. É o
racionalismo total. O que interessa é chegar à Ordem de
Melquisedec. Cristo, não Jesus, será rei da Ordem de Melquisedec.
No fundo, quando se atingir esse grau crístico, seremos
reis-sacerdotes, simultaneamente ocultistas e místicos, unindo a
mente e o coração - pensar com o coração e sentir com a mente.» |
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Sobre a hermenêutica da Bíblia,
assunto tão presente quer em Instruções Iniciáticas quer em
Laboratório Mágico, como vê:
- Encarnação/reencarnação
«A Encarnação e reencarnação têm a ver
com o seguinte: as doutrinas rosacrucianas preferem não usar a
palavra reencarnação, porque é ambígua, dúbia. O espírito pode tomar
um corpo por obsessão e encarnou. No entanto, não é uma reencarnação
no sentido usual da palavra. Por isto, usam a expressão
renascimento. A doutrina do renascimento é muito difícil de provar.
Os testemunhos são, essencialmente, de três tipos: o tipo relativo
às recordações (pessoas que se recordam ter sido A ou B numa vida
anterior); outro tipo é relativo ao espiritismo (os médiuns convocam
os chamados mortos e conversam com eles); e o terceiro tipo é
relativo a um grande iniciado de uma escola de mistérios, que
consegue fazer a chamada viagem-astral, indo ao outro lado e
trazendo informações. Em minha opinião, nenhum destes três
testemunhos são fiáveis. As recordações, mesmo que sejam autênticas,
podem, contudo, ser uma repescagem do banco da memória universal,
podem ser uma série de coisas. Há um autor que refuta as recordações
mostrando que há diversas crianças, de sítios diferentes e que nunca
se contactaram, que recordam terem sido a mesma pessoa. O
espiritismo é ainda pior, pois muitos espíritos dizem uma coisa,
outros dizem outra. Uns dizem que há reencarnação, outros dizem que
não há. Finalmente os iniciados, como é o caso do Max Heindel, que
fazem as suas viagens-astrais e contactam espíritos, além de
conseguirem fazer regressões às vidas anteriores. Eles falaram com
alguns espíritos; mas estatisticamente não se pode afirmar todo um
universo. Pode-se apenas afirmar que em certos casos existe
reencarnação, mas não mais do que isto. Os iniciados não podem
garantir que seja uma lei universal.
»O próprio Cristo admite que João
Baptista possa ser Elias. É o único caso na Bíblia em que Jesus faz
referência a algo relacionado com a reencarnação. E acrescenta "Se
quereis aceitá-lo”; ou seja, não é uma verdade importante para a
salvação.»
- E o significado de Jesus Cristo
como filho de Deus:
«É uma grande discussão entre os
teólogos, pois todos nós somos filhos de Deus: "Pai Nosso que estais
no Céu...". Cristo como especial filho de Deus foi uma controvérsia
que começou nos primeiros tempos do Cristianismo. Os teólogos dizem
que quando ele se refere aos Homens como filhos de Deus não utiliza
a mesma maneira quando ele se refere como filho de Deus. Nos
evangelhos sinópticos, Jesus nunca se refere como filho de Deus;
João é que quase identifica Jesus como Deus; mas não o faz
peremptoriamente.
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»Actualmente, há
três leituras. Há as leitura laica, teológica e esotérica. A
laica é aquela que se refere ao que está concretamente no texto.
A teológica é a que fazem os teólogos das igrejas
institucionalizadas. Finalmente, temos a leitura esotérica, que
é aquela que aprofunda. A palavra "esotérica" significa
simultaneamente aprofundar e guardar - e é interessante este
duplo significado. |
»Segundo uma leitura laica a expressão
"Eu e o Pai somos um" é muito simples: era uma expressão idiomática
do aramaico, a língua que Jesus falava. Os evangelhos, apesar de
escritos em grego, estão cheios de expressões idiomáticas aramaicas
e hebraicas. Quando em aramaico se diz que fulano é um com sicrano,
quer dizer que estão de acordo. A leitura teológica analisa da
seguinte forma: "Se eu e o Pai somos um", então, Jesus é igual a
Deus. A leitura esotérica tem de levar em conta outras coisas,
outras frases, como por exemplo sobre o Juízo Final: "Ninguém o sabe
nem os anjos que estão no Céu nem o Filho. Só o Pai." Nem o próprio
Jesus sabe o que vai na cabeça do Pai. Isto prova que são
diferentes. A leitura esotérica diz-nos que Jesus é uma entidade
especial; que Jesus não fez milagres antes do baptismo; e no
baptismo aconteceu qualquer coisa. Por conseguinte, todos somos
filhos de Deus.»
E como tem de ser lida a Bíblia hoje?
«Levei três meses para responder a isso
no curso que fiz na Universidade Nova de Lisboa… É difícil. Depende
da forma como se quer fazer a leitura da Bíblia. Laica? Teológica?
Esotérica? Se for a laica, é só ler o que está escrito e encontrará
diversas contradições. Encontrará crimes, incesto - horrível. Se for
a leitura teológica, terá de a ligar à tradição judaica. A esotérica
aprofunda os mistérios; aclara certas expressões que podem chocar.
Não é como se deve começar a ler a Bíblia hoje, mas sim que espécie
de leitura se está em condições de se fazer de um livro como a
Bíblia.»
Regressando à reencarnação… No
capítulo "Os Filhos do Sol", fala de Lázaro como a reencarnação de
Hiram…
«Isso é uma tradição que já vem do tempo
de Rudolf Steiner e de Max Heindel. O que eu faço são transcrições
das suas afirmações. Transmito uma ideia daqueles que se dizem
clarividentes.»
Curioso é que essa entidade
posteriormente fundou a Ordem dos Construtores do Templo 66 anos
depois da extinção da Ordem do Templo.
«É fazer as contas. Tem a ver com os
três manifestos rosacrucianos, que dizem exactamente quando o
Christian Rosencreutz desapareceu.»
Qual é o significado da Nova
Galileia?
«É um expressão usada no ocultismo
rosacruciano como sendo uma das Sete Épocas. Em termos ocultos,
existem sete períodos, que se podem comparar com as idades hindus.
Desde que o actual universo começou, temos aquilo que se chama
Épocas. São consideradas sete. A Polar, a Hiperbórea, a Lemúrica, a
Atlante, etc. Nós estamos na Época Ariana, que é a quinta, sucedânea
à Atlante. E não podemos dizer que foi um continente que se afundou.
A condensação na Época Atlante era muita; até se diz que os Homens
tinham guelras. Quando se deu o arrefecimento e começou a chover
abundantemente - o mito do dilúvio e da Atlântida de certo modo, os
Homens subiram para os pontos altos. Estamos na Época Ariana e já
temos pulmões. A seguir virá a Época da Galileia, a que se sucederá
a Época do Reino de Deus. A Época da Nova Galileia é prefigurada nos
evangelhos quando o Cristo diz "Eu esperar-vos-ei na Nova Galileia".
»Ah! E a Atlântida, já está provado, que
não existiu, estão totalmente sondados os fundos do Atlântico e
respectivos verstígios. Não se afundou nenhum continente. Já nos
anos 30, o arqueólogo português Mendes Correia, por exemplo, sabia
que uma Atlântida como Platão descreveu nunca poderia ter existido.
Ele e outros, sobretudo alemães, sabiam que o Platão se havia
inspirado numa grande civilização existente na Península Ibérica - a
dos Tartéssios - e que havia sido destruída pelos cartagineses 500
anos antes de Cristo. Esta civilização tinha uma hierarquização de
príncipes, sacerdotes, tinha templos e uma riqueza enorme. Platão
deve-se ter inspirado nesta civilização para criar o mito.»
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Porquê o
subtítulo Ensaios Alquimísticos de Laboratório Mágico
em vez de Ensaios Alquímicos?
«Porque são
alquimísticos (risos). Realmente sou mais místico do que
ocultista. Não tenho paciência para uma grande sistematização
mental. A alquimia para mim é fundamental, pois é a transmutação
da pessoa. Do meu ponto de vista, sou um alquimista, prefiro a
perspectiva dos níveis de ser, mas ao mesmo tempo tenho a base
mística.» |
Agora, fale-nos da sua experiência
com o sofrimento, tão bem retratada em O Laboratório Mágico.
Será que ele tem importância para a evolução do ser humano como
pessoa.
«O sofrimento é uma escola. O sacrifício
é uma purga… Todos nós sofremos. Algumas pessoas podem é não saber
tirar partido do sofrimento, causado por erros que cometeram nesta
ou numa outra vida anterior. São muitas as agressões que infligimos
contra o nosso corpo. Este está constantemente a corrigir todos os
disparates que fazemos, até com comidas enlatadas que comemos. Todos
os dias estamos a agredir o corpo. Não há dúvida que, quando o corpo
chega a um limite, a pessoa adoece. E a dor pode ser transmutável
numa coisa positiva, ou seja, em experiência. Transforma-se o
desafio numa bênção. A vida deixa de ser castigadora para passar a
ser mestra. Além disto, ao contar as minhas histórias tristes e
trágico-cómicas da minha vida, pensei em dedicar O Laboratório
Mágico aos que sofrem e gostariam de saber porquê. Portanto,
propus-me escrever um livro em que pudesse explicar o sofrimento e
como transmutá-lo em sementes frutuosas.
»Os capítulos iniciais foram escritos
muito tempo depois, porque julguei necessário transmitir ao leitor a
ideia - real - de que eu falava com conhecimento de causa. Eu não
posso falar de uma coisa em que o leitor desconfie que não conheço.
Ao escrever um livro sobre sofrimento tenho de mostrar ao leitor que
conheço o assunto, que tenho alguma experiência sobre esse assunto.
Por isto, os primeiros capítulos demonstram que estou apto a falar
do sofrimento, pois eu também passei das boas. Se uma pessoa que
sofre ler um livro em que vir que o autor passou pelo mesmo já não
tem tendência para se interrogar: “Por que é que isto só acontece a
mim?”. Cria-se, assim, uma certa solidariedade.»
E qual a intenção dos “Workshops” de
O Laboratório Mágico?
«De construir isso mesmo, um
laboratório; para as pessoas, pela prática, tentarem superar as
dificuldades. O sofrimento é importante porque é a trituração no
almofariz alquímico, a trituração pela qual a pessoa terá de passar
para que no fim possa produzir a Pedra Filosofal.»
Portugal: como o vê hoje?
«Portugal é um país, por enquanto,
oculto. Aliás, o Lima de Freitas chama a atenção para o facto de os
mitos mais proeminentes da mitogenia portuguesa (os “mitolusismos”)
não serem referidos nem pelo René Guénon, nem pelo Mircea Eliade,
que viveu em Lisboa e deu aulas cá, e ele cita outros; eles citam o
mito do imperador que há-de regressar, citam o mito do Encoberto,
citam o mito do Preste João e nunca citam Portugal, além de não
referirem o Sebastianismo quando se referem ao mito do Encoberto.
Portugal é um país que, por qualquer razão misteriosa, não existe e
tem de se manter oculto.»
Depois de ter analisado a estrutura
militar de Estados Unidos da América, país que poderia tentar um
Quinto Império - espiritual, continua dizendo que «o Quinto
Império português terá de ser espiritual. Há quem diga que esse
Quinto Império já se concretizou no Brasil, apesar de ignorado. O Pe.
António Vieira estava, inclusive, convencido de que o Quinto Império
seria o Brasil. E se calhar é capaz de ter razão, apesar de o Brasil
estar desorientado em muitos aspectos. Aliás, a primeira forma
governativa que o Brasil assumiu depois da independência foi a de
império. O António Quadros, citando o Agostinho da Silva, diz que
isto só faz sentido porque o império do Espírito Santo, naquela
altura, era corrente no Brasil. Claro que tudo isto degenerou.
»O problema da portugalidade é um
reencontrar das origens. É por isto que os livros, por exemplo, do
Paulo Loução considero interessantes, pois faz um trabalho de campo
muito importante… E estou totalmente de acordo com a ideia do
Franclim da “verticalização da Lusitânia”. Tudo ocorreu
naturalmente. As pessoas começaram a chamar Lusitânia a Portugal…
Portugal tem uma missão espiritual, mas sobretudo mistérica. E há
bastante gente que está em Portugal a encontrar os mitologemas
portugueses e a linha tradicional própria da portugalidade, que, a
partir do século XVII, se distanciou bastante da europeia, até,
então, existia uma linha esoterológica comum. Com a Inquisição, com
o surgimento do rosacrucianismo, a nossa linha iniciática quebrou-se
da corrente iniciática. Depois do culto do Império e do Divino
Espírito Santo veio o Bandarra; no século XVII, tivemos o gigantesco
Vieira, que acompanhou o século XVII todo. Ele foi buscar o mito do
Quinto Império ao profeta Daniel e a Frei Gil de Santarém. Então,
ficámos com os mitos diferentes: o bandarrismo, o Quinto Império, o
Sebastianismo e as festas do Espírito Santo. De repente, temos uma
linha iniciática própria, que tem sido trabalhada por autores
interessantes, desde o Leonardo Coimbra, o Sampaio Bruno, o Fernando
Pessoa, o Almada Negreiros, Lima de Freitas, etc. e muitos outros
artistas e investigadores portugueses do século XX.»
A última questão: porquê afirmar-se
anarco-místico?
«Sempre me dei mal com autoridades e
dogmatismos, assim como com a intolerância. Vivi durante quarenta e
dois anos debaixo do regime salazarento. Não podia ser comunista,
pois este também era intolerante. Não podia aceitar intolerância de
espécie alguma, assim como de carácter religioso. A pessoa tem de
ser livre para aderir. Paulo diz que onde está o espírito de Deus aí
há liberdade; e nós somos o templo do espírito de Deus. Se nós somos
o templo do espírito de Deus, nós somos naturalmente livres, mesmo
quando aceito determinadas coisas que podem parecer imposições, como
fazer o bem. Aceito livremente, identifico-me com aquilo.
Considero-me um anarca pois não aceito nem tolero qualquer espécie
de imposição que me é imposta e que eu tenho de aceitar cegamente.
Anarco-místico porque talvez eu privilegie a intuição em vez do
racicocínio; e não é porque eu ache que é melhor ser-se místico do
que ocultista. Ambas são situações temporariamente incompletas, que
deverão uma dia, na futura Ordem de Melquisedec, produzir o
casamento alquímico; no fundo, são as núpcias químicas do Christian
Rosencreutz - a união das duas colunas do templo: Jachin e Boaz.
Quando isto se consegue, como disse há pouco, a pessoa consegue
sentir com a mente e pensar com o coração. Como estou numa fase
transitória, sou apenas anarco-místico.»
¹ A
Kodak instalou-se em Portugal no ano de 1919. Em jeito de
brincadeira, António de Macedo contou que os pais foram dos
primeiros empregados da Kodak. Na Kodak se conheceram, na Kodak se
casaram e que ele, António de Macedo, nasceu na Kodak. Em suma,
apenas podia ser cineasta.
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