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Número 44 - Setembro 2003

 

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António Macedo

 

À Conversa com...

António de Macedo

 

por Sérgio S. Rodrigues
e Miguel Campos-Reis

Fotos:
Alexandre Gabriel

 

António de Macedo nasceu no dia 5 de Julho de 1931 (signo: Caranguejo) na Rua da Rosa, no número 9, o prédio onde também nasceu Camilo Castelo Branco. Licenciado em Arquitectura, exerceu a actividade durante oito anos na Câmara Municipal de Lisboa. Começou por fazer os seus primeiros filmes ainda nos tempos de estudante com as fitas fora de prazo que o pai trazia da Kodak¹. Quando funcionário da Câmara, realizou um dos seus primeiros filmes Ode Triunfal, visto na altura, entre outras figuras ilustres, por António Quadros, que muito elogiou tal produção. A sua primeira grande produção foi, contudo, uma curta-metragem, intitulada Verão Coincidente (1962). Seguiu-se Nicotiana (1963), uma outra curta-metragem, que pretendia ser um documentário para a Tabaqueira. Em 1964, deixa a sua função na Câmara Municipal de Lisboa, pois estava farto de censurar os trabalhos dos colegas. Começa, então, a filmar Domingo à Tarde (1965), onde inovou o cinema português, colocando os actores a falar em voz baixa, quando o habitual era a declamação das falas por parte destes como se estivessem num palco de teatro. A este início de carreira como cineasta, sucedeu-se uma extensa lista de obras cinematográficas: Nojo aos Cães (1970); A Promessa (1972); As Horas de Maria (1976); Chá Forte com Limão (1993); entre outras.

Desde cedo que a paixão da escrita tomou o seu espírito. Os primeiros livros publicados foram os dois volumes de Evolução Estética do Cinema (1959-60), sendo considerados fundamentais na teorização do cinema. Em 1961, vê publicado Da Essência da Libertação, um livro que se insere dentro do movimento da Filosofia Portuguesa. Em 1983, estreia-se no género dramático com a publicação de A Pomba, publicou mais dois títulos. Ao nível da ficção, a estreia realiza-se com O Limite de Rudzky (1992); publicou mais cinco títulos. Instruções Iniciáticas (1999) e Laboratório Mágico (2002) são os dois ensaios onde o seu simbolismo e o seu esoterismo atingem um considerável nível de perfeição, apesar de esse mesmo simbolismo e de esse mesmo esoterismo se encontrarem presentes no universo dos seus filmes e de outros livros seus.

Durante duas Quintas-feiras, conversámos com António de Macedo. As conversas tidas foram longas e de um interesse inefável. Instruções Iniciáticas e Laboratório Mágico foram os dois livros centrais nas conversas animadamente tidas em casa do cineasta.

Como é que o Esoterismo entra na sua vida?

«Desde sempre que ele está presente na minha vida. Até determinada fase, de uma maneira inconsciente. O ponto de viragem dá-se com o filme O Princípio da Sabedoria, apesar de uma mistura com o orientalismo.»

E com a viragem do Oriente para o Ocidente confessa porque razão o budismo é um bom princípio para o cristianismo:

«Para quem ache que o Cristianismo é duro demais e tenha dificuldade em compreender o que é oferecer a outra face, se começar pelo budismo irá compreender o que é oferecer a outra face - a face da compreensão. O budismo surge numa época em que era necessário dar um alimento mais mastigado para a gente onde ele surge. O Cristo já vem para adultos, para gente forte, pois diz coisas fortes, coisas para o futuro. O Oriente é a fase preparatória. Os grandes profetas do Oriente prepararam a vinda do Cristo; e eu próprio tentei esse caminho. O Cristianismo costuma ser, em Portugal, identificado com Catolicismo e, por isto, há uma certa relutância. Mas é necessário é ir ao fundo do Cristianismo. O Oriente, em suma, é uma grande ajuda para sermos cristãos. Mas não é necessário primeiro ser-se budista para se ser cristão. Mas ajuda.»

O percurso místico de António de Macedo, referido em Instruções Iniciáticas, cumpriu-se do Oriente para Ocidente. A partir daqui, quando entra na senda do Cristianismo fala de uma procura sua sobre Escolas de Mistérios e Tradições Iniciáticas. Porquê essa procura? Para aprofundar os seus conhecimentos?

«Para aprofundar e não só. À medida que ia estudando esses assuntos e que ia lendo René Guénon, que é um autor importante - apesar de eu não ser guenonista - pois desbravou muito terreno e clarificou muita coisa, sobretudo ao nível das tradições iniciáticas, queria conhecer mais. Hoje há muitas provas de que os inícios do Cristianismo sejam iniciáticos. As primeiras comunidades cristãs, aquelas que estavam próximas de Jesus, eram Escolas de Mistérios. As Escolas de Mistérios dos hebreus tinham um determinado nível vibratório, que urgia elevar no tempo em que surgiram os mistérios cristãos, iniciados por Cristo. E depois é muito claro quando ele morreu na cruz e se diz que se rasgou o véu do Templo, e quase todos os evangelhos dizem praticamente o mesmo. O véu do templo estava a separar o santuário do Santo dos Santos, onde estava a arca-da-aliança. Ninguém tinha acesso ao Santo dos Santos, a não ser o sumo-sacerdote uma vez por ano e após ter feito grande purificação dos seus pecados. Portanto, a iniciação não estava aberta a todos. Apenas estava aberta àqueles que pertenciam a certas "castas". Quando o Cristo veio, elevou os mistérios um grau. Rasgando-se o véu do templo quando ele morreu, passou-se a ter acesso ao Santo dos Santos. Ou seja, isto é muito claro quando se vê as Comunidades Iniciáticas Cristãs, enfim, os quatro Evangelhos, quatro rituais de iniciação, sendo os sinópticos rituais de mistérios menores e o de João um ritual de mistérios maiores. A partir daí, surge o desejo de saber como isso se desenvolveu. E nem tudo podia ser escrito, pois o ensinamento era feito através de boca a ouvido. Há dois autores, Clemente de Alexandria e Orígenes, que falam inequivocamente dos mistérios cristãos, que falam de um ensinamento esotérico, não sendo este para todos. Jesus tinha um ensinamento para os discípulos e outro para as multidões.»

Em 1979, lê o seu primeiro livro de Max Heindel: O Conceito Rosa-Cruz do Cosmos. O fascínio tomou-lhe o espírito.

«O João Roque deu-me uma série de indicações sobre os rosa-cruzes fiquei fascinado. Já havia o gérmen em mim. Fui à procura de mais livros e encontrei um livrinho chamado A Doutrina Secreta dos Rosa-Cruzes, livro que eu li fascinadamente. Como tinha o contacto, pedi informações. Mais tarde soube que esse mesmo contacto havia causado grande confusão, pois no Centro Rosa-cruz não sabiam o porquê de eu, um ateu como me consideravam, ter contactado um centro rosacruciano. Receberam-me com cuidado. Disse-lhes que queria entrar e fazer os seus cursos. E assim foi. Tinha, então, 49 anos (7 X 7).»

Em Instruções Iniciáticas considera a "via oculta" como sendo da mente e a "via mística" como sendo do coração. Mas estes dois conceitos não andam juntos?

«O ideal é torná-los juntos. Cabe a nós promover a fusão. Normalmente os místicos não são ocultistas - Santa Teresa d'Ávila, São Francisco de Assis, Santo António, entre outros, são grandes místicos, mas não entram pela "via oculta", que é pertencente às Escolas de Mistérios. Por sua vez, os ocultistas, que estudam toda a parte filosófica e iniciática, têm as Escolas de Mistérios destinadas para si, pois através da mente uma pessoa pode fazer um estudo e uma série de exercícios, desenvolvendo, pouco a pouco, a cordialidade, o lado do coração. O ideal é juntar as duas coisas para que a humanidade seja perfeita com os reis-sacerdotes: o caminho real - o da mente, e o caminho sacerdotal - o do coração.»


E como é que redescobriu o Cristianismo? Através das teorias rosacruzes?

«A descoberta foi através das obras de Max Heindel, principalmente com o livro que faz diversas interpretações da Bíblia. Para ele, todas as alegorias que se encontram na Bíblia têm um significado. Por exemplo, os doze filhos de Jacob correspondem aos doze signos do Zodíaco. Há uma série de alegorias e simbolismos que correspondem a uma série de escolas iniciáticas. Fiquei fascinado com essas lições de Max Heindel. Fiz os diversos cursos. A partir daí comecei a ler a Bíblia com outros olhos. E a Bíblia é, de facto, algo fabuloso; é um documento cifrado, para o qual se tem de encontrar a cifra, a chave. A redescoberta foi, assim, através do rasacrucianismo. Depois li os tratados de teologia católica para ver até que ponto o que era cristalino se tornou complicado.

 Os teólogos católicos não são místicos, são ocultistas (risos) sem saber que o são. Claro que é um ocultismo levado ao extremo. É o racionalismo total. O que interessa é chegar à Ordem de Melquisedec. Cristo, não Jesus, será rei da Ordem de Melquisedec. No fundo, quando se atingir esse grau crístico, seremos reis-sacerdotes, simultaneamente ocultistas e místicos, unindo a mente e o coração - pensar com o coração e sentir com a mente.»

Sobre a hermenêutica da Bíblia, assunto tão presente quer em Instruções Iniciáticas quer em Laboratório Mágico, como vê:
- Encarnação/reencarnação

«A Encarnação e reencarnação têm a ver com o seguinte: as doutrinas rosacrucianas preferem não usar a palavra reencarnação, porque é ambígua, dúbia. O espírito pode tomar um corpo por obsessão e encarnou. No entanto, não é uma reencarnação no sentido usual da palavra. Por isto, usam a expressão renascimento. A doutrina do renascimento é muito difícil de provar. Os testemunhos são, essencialmente, de três tipos: o tipo relativo às recordações (pessoas que se recordam ter sido A ou B numa vida anterior); outro tipo é relativo ao espiritismo (os médiuns convocam os chamados mortos e conversam com eles); e o terceiro tipo é relativo a um grande iniciado de uma escola de mistérios, que consegue fazer a chamada viagem-astral, indo ao outro lado e trazendo informações. Em minha opinião, nenhum destes três testemunhos são fiáveis. As recordações, mesmo que sejam autênticas, podem, contudo, ser uma repescagem do banco da memória universal, podem ser uma série de coisas. Há um autor que refuta as recordações mostrando que há diversas crianças, de sítios diferentes e que nunca se contactaram, que recordam terem sido a mesma pessoa. O espiritismo é ainda pior, pois muitos espíritos dizem uma coisa, outros dizem outra. Uns dizem que há reencarnação, outros dizem que não há. Finalmente os iniciados, como é o caso do Max Heindel, que fazem as suas viagens-astrais e contactam espíritos, além de conseguirem fazer regressões às vidas anteriores. Eles falaram com alguns espíritos; mas estatisticamente não se pode afirmar todo um universo. Pode-se apenas afirmar que em certos casos existe reencarnação, mas não mais do que isto. Os iniciados não podem garantir que seja uma lei universal.

»O próprio Cristo admite que João Baptista possa ser Elias. É o único caso na Bíblia em que Jesus faz referência a algo relacionado com a reencarnação. E acrescenta "Se quereis aceitá-lo”; ou seja, não é uma verdade importante para a salvação.»

- E o significado de Jesus Cristo como filho de Deus:

«É uma grande discussão entre os teólogos, pois todos nós somos filhos de Deus: "Pai Nosso que estais no Céu...". Cristo como especial filho de Deus foi uma controvérsia que começou nos primeiros tempos do Cristianismo. Os teólogos dizem que quando ele se refere aos Homens como filhos de Deus não utiliza a mesma maneira quando ele se refere como filho de Deus. Nos evangelhos sinópticos, Jesus nunca se refere como filho de Deus; João é que quase identifica Jesus como Deus; mas não o faz peremptoriamente.

»Actualmente, há três leituras. Há as leitura laica, teológica e esotérica. A laica é aquela que se refere ao que está concretamente no texto. A teológica é a que fazem os teólogos das igrejas institucionalizadas. Finalmente, temos a leitura esotérica, que é aquela que aprofunda. A palavra "esotérica" significa simultaneamente aprofundar e guardar - e é interessante este duplo significado.

»Segundo uma leitura laica a expressão "Eu e o Pai somos um" é muito simples: era uma expressão idiomática do aramaico, a língua que Jesus falava. Os evangelhos, apesar de escritos em grego, estão cheios de expressões idiomáticas aramaicas e hebraicas. Quando em aramaico se diz que fulano é um com sicrano, quer dizer que estão de acordo. A leitura teológica analisa da seguinte forma: "Se eu e o Pai somos um", então, Jesus é igual a Deus. A leitura esotérica tem de levar em conta outras coisas, outras frases, como por exemplo sobre o Juízo Final: "Ninguém o sabe nem os anjos que estão no Céu nem o Filho. Só o Pai." Nem o próprio Jesus sabe o que vai na cabeça do Pai. Isto prova que são diferentes. A leitura esotérica diz-nos que Jesus é uma entidade especial; que Jesus não fez milagres antes do baptismo; e no baptismo aconteceu qualquer coisa. Por conseguinte, todos somos filhos de Deus.»

E como tem de ser lida a Bíblia hoje?

«Levei três meses para responder a isso no curso que fiz na Universidade Nova de Lisboa… É difícil. Depende da forma como se quer fazer a leitura da Bíblia. Laica? Teológica? Esotérica? Se for a laica, é só ler o que está escrito e encontrará diversas contradições. Encontrará crimes, incesto - horrível. Se for a leitura teológica, terá de a ligar à tradição judaica. A esotérica aprofunda os mistérios; aclara certas expressões que podem chocar. Não é como se deve começar a ler a Bíblia hoje, mas sim que espécie de leitura se está em condições de se fazer de um livro como a Bíblia.»

Regressando à reencarnação… No capítulo "Os Filhos do Sol", fala de Lázaro como a reencarnação de Hiram…

«Isso é uma tradição que já vem do tempo de Rudolf Steiner e de Max Heindel. O que eu faço são transcrições das suas afirmações. Transmito uma ideia daqueles que se dizem clarividentes.»

Curioso é que essa entidade posteriormente fundou a Ordem dos Construtores do Templo 66 anos depois da extinção da Ordem do Templo.

«É fazer as contas. Tem a ver com os três manifestos rosacrucianos, que dizem exactamente quando o Christian Rosencreutz desapareceu.»

Qual é o significado da Nova Galileia?

«É um expressão usada no ocultismo rosacruciano como sendo uma das Sete Épocas. Em termos ocultos, existem sete períodos, que se podem comparar com as idades hindus. Desde que o actual universo começou, temos aquilo que se chama Épocas. São consideradas sete. A Polar, a Hiperbórea, a Lemúrica, a Atlante, etc. Nós estamos na Época Ariana, que é a quinta, sucedânea à Atlante. E não podemos dizer que foi um continente que se afundou. A condensação na Época Atlante era muita; até se diz que os Homens tinham guelras. Quando se deu o arrefecimento e começou a chover abundantemente - o mito do dilúvio e da Atlântida de certo modo, os Homens subiram para os pontos altos. Estamos na Época Ariana e já temos pulmões. A seguir virá a Época da Galileia, a que se sucederá a Época do Reino de Deus. A Época da Nova Galileia é prefigurada nos evangelhos quando o Cristo diz "Eu esperar-vos-ei na Nova Galileia".

»Ah! E a Atlântida, já está provado, que não existiu, estão totalmente sondados os fundos do Atlântico e respectivos verstígios. Não se afundou nenhum continente. Já nos anos 30, o arqueólogo português Mendes Correia, por exemplo, sabia que uma Atlântida como Platão descreveu nunca poderia ter existido. Ele e outros, sobretudo alemães, sabiam que o Platão se havia inspirado numa grande civilização existente na Península Ibérica - a dos Tartéssios - e que havia sido destruída pelos cartagineses 500 anos antes de Cristo. Esta civilização tinha uma hierarquização de príncipes, sacerdotes, tinha templos e uma riqueza enorme. Platão deve-se ter inspirado nesta civilização para criar o mito.»

Porquê o subtítulo Ensaios Alquimísticos de Laboratório Mágico em vez de Ensaios Alquímicos?

«Porque são alquimísticos (risos). Realmente sou mais místico do que ocultista. Não tenho paciência para uma grande sistematização mental. A alquimia para mim é fundamental, pois é a transmutação da pessoa. Do meu ponto de vista, sou um alquimista, prefiro a perspectiva dos níveis de ser, mas ao mesmo tempo tenho a base mística.»

Agora, fale-nos da sua experiência com o sofrimento, tão bem retratada em O Laboratório Mágico. Será que ele tem importância para a evolução do ser humano como pessoa.

«O sofrimento é uma escola. O sacrifício é uma purga… Todos nós sofremos. Algumas pessoas podem é não saber tirar partido do sofrimento, causado por erros que cometeram nesta ou numa outra vida anterior. São muitas as agressões que infligimos contra o nosso corpo. Este está constantemente a corrigir todos os disparates que fazemos, até com comidas enlatadas que comemos. Todos os dias estamos a agredir o corpo. Não há dúvida que, quando o corpo chega a um limite, a pessoa adoece. E a dor pode ser transmutável numa coisa positiva, ou seja, em experiência. Transforma-se o desafio numa bênção. A vida deixa de ser castigadora para passar a ser mestra. Além disto, ao contar as minhas histórias tristes e trágico-cómicas da minha vida, pensei em dedicar O Laboratório Mágico aos que sofrem e gostariam de saber porquê. Portanto, propus-me escrever um livro em que pudesse explicar o sofrimento e como transmutá-lo em sementes frutuosas.

»Os capítulos iniciais foram escritos muito tempo depois, porque julguei necessário transmitir ao leitor a ideia - real - de que eu falava com conhecimento de causa. Eu não posso falar de uma coisa em que o leitor desconfie que não conheço. Ao escrever um livro sobre sofrimento tenho de mostrar ao leitor que conheço o assunto, que tenho alguma experiência sobre esse assunto. Por isto, os primeiros capítulos demonstram que estou apto a falar do sofrimento, pois eu também passei das boas. Se uma pessoa que sofre ler um livro em que vir que o autor passou pelo mesmo já não tem tendência para se interrogar: “Por que é que isto só acontece a mim?”. Cria-se, assim, uma certa solidariedade.»

E qual a intenção dos “Workshops” de O Laboratório Mágico?

«De construir isso mesmo, um laboratório; para as pessoas, pela prática, tentarem superar as dificuldades. O sofrimento é importante porque é a trituração no almofariz alquímico, a trituração pela qual a pessoa terá de passar para que no fim possa produzir a Pedra Filosofal.»

Portugal: como o vê hoje?

«Portugal é um país, por enquanto, oculto. Aliás, o Lima de Freitas chama a atenção para o facto de os mitos mais proeminentes da mitogenia portuguesa (os “mitolusismos”) não serem referidos nem pelo René Guénon, nem pelo Mircea Eliade, que viveu em Lisboa e deu aulas cá, e ele cita outros; eles citam o mito do imperador que há-de regressar, citam o mito do Encoberto, citam o mito do Preste João e nunca citam Portugal, além de não referirem o Sebastianismo quando se referem ao mito do Encoberto. Portugal é um país que, por qualquer razão misteriosa, não existe e tem de se manter oculto.»

Depois de ter analisado a estrutura militar de Estados Unidos da América, país que poderia tentar um Quinto Império - espiritual, continua dizendo que «o Quinto Império português terá de ser espiritual. Há quem diga que esse Quinto Império já se concretizou no Brasil, apesar de ignorado. O Pe. António Vieira estava, inclusive, convencido de que o Quinto Império seria o Brasil. E se calhar é capaz de ter razão, apesar de o Brasil estar desorientado em muitos aspectos. Aliás, a primeira forma governativa que o Brasil assumiu depois da independência foi a de império. O António Quadros, citando o Agostinho da Silva, diz que isto só faz sentido porque o império do Espírito Santo, naquela altura, era corrente no Brasil. Claro que tudo isto degenerou.

»O problema da portugalidade é um reencontrar das origens. É por isto que os livros, por exemplo, do Paulo Loução considero interessantes, pois faz um trabalho de campo muito importante… E estou totalmente de acordo com a ideia do Franclim da “verticalização da Lusitânia”. Tudo ocorreu naturalmente. As pessoas começaram a chamar Lusitânia a Portugal… Portugal tem uma missão espiritual, mas sobretudo mistérica. E há bastante gente que está em Portugal a encontrar os mitologemas portugueses e a linha tradicional própria da portugalidade, que, a partir do século XVII, se distanciou bastante da europeia, até, então, existia uma linha esoterológica comum. Com a Inquisição, com o surgimento do rosacrucianismo, a nossa linha iniciática quebrou-se da corrente iniciática. Depois do culto do Império e do Divino Espírito Santo veio o Bandarra; no século XVII, tivemos o gigantesco Vieira, que acompanhou o século XVII todo. Ele foi buscar o mito do Quinto Império ao profeta Daniel e a Frei Gil de Santarém. Então, ficámos com os mitos diferentes: o bandarrismo, o Quinto Império, o Sebastianismo e as festas do Espírito Santo. De repente, temos uma linha iniciática própria, que tem sido trabalhada por autores interessantes, desde o Leonardo Coimbra, o Sampaio Bruno, o Fernando Pessoa, o Almada Negreiros, Lima de Freitas, etc. e muitos outros artistas e investigadores portugueses do século XX.»

A última questão: porquê afirmar-se anarco-místico?

«Sempre me dei mal com autoridades e dogmatismos, assim como com a intolerância. Vivi durante quarenta e dois anos debaixo do regime salazarento. Não podia ser comunista, pois este também era intolerante. Não podia aceitar intolerância de espécie alguma, assim como de carácter religioso. A pessoa tem de ser livre para aderir. Paulo diz que onde está o espírito de Deus aí há liberdade; e nós somos o templo do espírito de Deus. Se nós somos o templo do espírito de Deus, nós somos naturalmente livres, mesmo quando aceito determinadas coisas que podem parecer imposições, como fazer o bem. Aceito livremente, identifico-me com aquilo. Considero-me um anarca pois não aceito nem tolero qualquer espécie de imposição que me é imposta e que eu tenho de aceitar cegamente. Anarco-místico porque talvez eu privilegie a intuição em vez do racicocínio; e não é porque eu ache que é melhor ser-se místico do que ocultista. Ambas são situações temporariamente incompletas, que deverão uma dia, na futura Ordem de Melquisedec, produzir o casamento alquímico; no fundo, são as núpcias químicas do Christian Rosencreutz - a união das duas colunas do templo: Jachin e Boaz. Quando isto se consegue, como disse há pouco, a pessoa consegue sentir com a mente e pensar com o coração. Como estou numa fase transitória, sou apenas anarco-místico.»


¹ A Kodak instalou-se em Portugal no ano de 1919. Em jeito de brincadeira, António de Macedo contou que os pais foram dos primeiros empregados da Kodak. Na Kodak se conheceram, na Kodak se casaram e que ele, António de Macedo, nasceu na Kodak. Em suma, apenas podia ser cineasta.


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